domingo, 21 de setembro de 2014

Desânimo.

 
DESÂNIMO

Já nada tenho do que outrora tive,
e noutros tempos muita coisa eu tinha:
minh'Alma, agora, em desespero, vive,
vivendo sem viver, triste e sozinha.

Muito sorri e muita dor contive,
para que o Mundo vil não visse a minha
grande e profunda Mágoa. E assim estive,
a viver uma vida bem mesquinha.

Tudo perdi. Na noite do passado,
apagou-se o final que me guiava,
no Céu do meu viver a fulgurar.

Agora, velho, trôpego, cansado,
espero, mas em vão, que d'Alma escrava,
venha a Morte os grilhões despedaçar.

Figueiredo Pimentel
Alberto Figueiredo Pimentel (Macaé, 1869 – 1914) foi um romancista, cronista, diplomata, contista, poeta e jornalista brasileiro.  

Figueiredo Pimentel foi além de poeta, contista, cronista, autor de literatura infantil e tradutor. Manteve por muitos anos, desde 1907, uma seção chamada Binóculo na Gazeta de Notícias. Publicou novelas, poesia, histórias infantis e contos.

Um de seus grandes êxitos foi o romance naturalista O Aborto, estudo naturalista, publicado em 1893 e que hoje se encontra completamente esgotado à espera de uma urgente e necessária reedição. Como poeta, participou da primeira geração simbolista chegando a se corresponder com os franceses. Era amigo de Aluísio Azevedo, com quem trocou cartas, enquanto o autor de O Cortiço estava fora do país como diplomata.

Foi figura destacada na cena Belle Époque carioca. Poeta, romancista, escritor de literatura infantil, ganhou destaque e se perpetuou nos compêndios da literatura brasileira. Possui a autoria da máxima “O Rio civiliza-se”. O slogan lançado, em 1904, na Gazeta de Notícias, ganha envergadura como palavra de ordem do reformismo reacionário que provoca mudanças na vida carioca, interferindo em hábitos e costumes de seus moradores. A comunicação terá como foco a coluna Binóculo, assinada pelo autor, identificado como o primeiro cronista social da capital. Era ele quem tratava das novidades da moda, do bom gosto, do chic  em voga em Paris e que deveria ser aqui aclimatado. 
 
Fonte: Wikipédia.
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sexta-feira, 19 de setembro de 2014

O cão.


O CÃO

Nada mais próximo da morte: o cão
dormindo na calçada. Na medula
do sonho se mantém, e não se anula
ao modo de mosaico, ralo e chão,

sobre cuja epiderme, alto-relevo,
desenha a sua sombra, que o ocupa
como a tudo que a morte desocupa
acentuando o cárcere e o relevo.

Por entre as coisas próprias de uma rua
persiste indecifrável, pelo, instinto,
e sempre distinguido do comum

quando a morte o constrói e o faz nenhum,
a figura do cão, só, no recinto
do sono transbordante em que flutua.

Cláudio Mello e Souza 
  
Rio - Em janeiro deste ano, um diagnóstico de leucemia levou Cláudio Mello e Souza, um dos jornalistas mais conhecidos do país, a ficar internado desde então no hospital Copa d'Or, a poucas centenas de metros do seu apartamento, na Rua Santa Clara. Durante os sete meses de luta contra a doença, o jornalista não escondia sua preocupação com a conclusão de seus dois últimos projetos: um livro de entrevistas sobre o escritor português Eça de Queiroz - uma de suas grandes paixões - e a biografia do ex-governador da Guanabara Carlos Lacerda de quem foi amigo... Leia mais aqui: 

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quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Eu vi dois pólos.

 

EU VI DOIS PÓLOS

Eu vi dos pólos o gigante alado
Sobre um montão de pálidos coriscos,
Sem fazer caso dos bulcões ariscos
Devorando em silêncio a mão do fado

Cinco fatias de tufão gelado,
Figuravam na mesa entre os petiscos,
Envolto em crepe de fatais rabisco
Campeava o sofisma ensanguentado.

Quem és? Que assim me cercas de episódios
Lhe perguntei com voz de silogismo,
Brandindo um facho de trovões serôdios!

Eu sou, me disse, aquele anacronismo
Que a vil caterva de sulfúricos ódios,
Nas trevas sepultei de um solecismo.

Bernardo Guimarães
 

Leia mais um belo soneto e um resumo da biografia do autor aqui:

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segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Se eu morresse amanhã.


SE EU MORRESSE AMANHÃ

Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!
 
Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!

Que sol! Que céu azul! Que dove n'alva
Acorda a natureza mais loucã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu mossesse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!

Álvares de Azevedo
 
Leia mais um belo soneto e um resumo da biografia do autor aqui:

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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

O sonho.

   

O SONHO

Sonhei que estávamos num belo jardim,
Verdejante e ornado com lindas flores.
Açucena, amor perfeito, crisântemo e jasmim,
Exalando fragrâncias num misto de odores.

De um lado, formosa, estava uma rosa,
E do outro, perfilado, estava um cravo.
A rosa repousava com sua graça mimosa,
O cravo implorava seu amor como um bravo.

E assim, de uma forma magna, esplendorosa,
A história de um lindo amor aconteceu.
A felicidade reinou para ambos, imperiosa,

Mas o sonho findou. O dia lentamente amanheceu.
Ao meu lado dormindo, tu eras a rosa,
Ao teu lado acordado, o cravo era eu.

R.S. Furtado. 

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